Ana Moreira

Entrevista com Ana Moreira

Por Espaço Aberto em Janeiro de 2012

Publicada na revista Nº 7
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ESCOLA DA PONTE - REPENSAR A ESCOLA

No espaço há muitos planetas.
Um desses planetas é a Terra e tem vários continentes.

Um deles chama-se Europa e tem um bonito país que é Portugal.

A nossa Escola situa-se no norte de Portugal, a cerca de 30 Km da cidade do Porto, numa simpática vila que se chama "Vila das Aves".

A Escola da Ponte existe porque a que existia não funcionava e os professores precisavam mais de interrogações do que de certezas. Existe porque as pessoas que a questionaram concluíram que só pode haver um projecto quando todos se conhecem entre si e se reconhecem em objectivos comuns.

A Escola da Ponte continua a existir porque quem nela se envolve acredita que obrigar cada um a ser um outro-igual-a todos, é negar a possibilidade de existir como pessoa livre e consciente.

Entrevista com Ana Moreira
Coordenadora do Projeto Educativo Escola da Ponte


EA – Como aconteceu o início deste projeto?


AM – Este movimento começou numa escola primária, com os incómodos que as pessoas sentiam em relação às práticas que estavam a desenvolver: as dificuldades de ensino para alunos diferenciados, de materiais…

Por detrás deste movimento está uma pessoa, José Pacheco. Foi ele que despoletou, de alguma forma, esta consciencialização de mudança.

Quando começaram, as mudanças eram muito pequenas e cautelosas, em terrenos que as pessoas não conheciam muito bem; sabiam o que tinham, sabiam que não servia e estavam à procura de uma resposta. Foi assim que foram nascendo os seus alicerces.

Escola da Ponte
Escola da Ponte

EA – Com a satisfação das pessoas?


AM – Exato. Paralelamente a esta introdução de mudança, há sempre um referencial teórico. Mas este referencial não norteia sob o ponto de vista de uma corrente ou de um pedagogo, mas de um conjunto de pedagogos, que foram fundamentais para esta reflexão. É nesta influência, a da procura de uma resposta diferente, que encontramos na base do ninho do projeto. Este foi-se construindo, à medida que as mudanças se foram introduzindo e, ainda hoje, ele próprio tem esse dinamismo. Até por que a escola alargou-se, depois, à oferta aos segundo e terceiro ciclos.


EA – Em Vila das Aves há mais escolas?


AM – Sim.


EA – Esta é uma escola pública?


AM – É.


EA – Tem muita procura?


AM – O projeto está mais que implementado em Vila das Aves. Somos procurados por alunos de Vila das Aves e por muitos de fora que procuram, objetivamente, este projeto. Nunca estivemos circunscritos à questão legal da área de influência.


EA – Poderia colocar cá o meu filho?


AM – Claro. Há famílias de Lisboa que vieram para cá viver, atrás deste projeto.


EA – Em Portugal, este tipo de escola é única?


AM –É única.


EA – Baseiam-se no método Waldorf?


AM – Recebemos muita gente de fora, como uma colega que esteve cá a trabalhar sob a pedagogia Waldorf, a procurar que picos de ligação encontrava com a pedagogia Waldorf.
(Recebemos imensos visitantes; no ano passado foram mais de mil. Para além desses, recebemos muitas pessoas que estão a fazer trabalho de investigação na Ponte, em mestrado, em doutoramento… É, então, uma escola que segue a pedagogia Waldorf? Não. É uma escola que tem influências da pedagogia de Waldorf, entre outras.


EA – Vão retirando o melhor delas?


AM – Pode não ser o melhor. Mas é aquilo que consideramos importante e com que nos identificamos. Mas como escola, cá [em Portugal] não há mais nenhuma. Há, sim, experiências muito interessantes, como o Movimento da Escola Moderna. Mas com as características que esta escola oferece ao primeiro, segundo e terceiro ciclos, é única.


EA – Sendo uma escola pública e tendo este método de abordar a educação, qual é a perspectiva do Estado?


AM – Repare: a escola da Ponte foge ao establishment. Mas é uma escola pública e, se está presente, é porque é tolerada. Nem sempre estamos confortáveis, porque o Ministério da Educação está organizado para o modelo de escola tradicional e a Ponte tem um modelo de escola que se afasta. Por exemplo, hoje em dia, o Ministério aposta muito nas plataformas digitais, onde descarregamos a parte mais administrativa, até à parte pedagógica. Acontece que não temos enquadramento nelas, pois não temos turmas, nem estamos organizados por anos de escolaridade. De facto, temos aqui algumas dificuldades. Mas eles sabem que nós as temos.


EA – Mas o Ministério aceita este método de ensino?


AM – Aceita e procura-o. É interessante porque, sempre que os serviços do Ministério querem mostrar um projeto inovador e uma escola diferente, procura-nos. Por exemplo, esta escola fez parte de um programa do próprio Ministério, o Boa Esperança Boas Práticas.

Estivemos também a representar o nosso país em Paris, a convite do Ministério da Educação, numa feira de apresentação de Produtos Inovadores em Educação.


EA – E foi a única a representar Portugal?


AM – Sim, foi a única. No ano passado, foi-nos pedido, através dos serviços da Direção Regional de Educação, que recebesse-mos um grupo de decisores de educação da Europa. Encontrámo-nos e partilhámos. Foi um espanto para as pessoas que vieram.

Na minha modesta opinião, um dos aspetos profundamente inovador é esta abrangência sistémica do projecto enquanto escola, que não é um foco de um ano ou de uma turma.

É toda uma escola que se organiza em torno de princípios, que estão subjacentes a um conjunto de dispositivos que a escola criou para poder estar organizada desta forma.

Isto, de facto, é inovador, acrescida da oferta até ao terceiro ciclo, que é muito recente (desde 2005).


EA – E quais são esses princípios?


AM – São aqueles que estão delineados no projeto. De uma forma resumida: uma oferta para todos, onde seja respeitada a individualidade de cada um, independentemente das suas necessidades; uma oferta onde os alunos possam, diariamente, exercer a cidadania e auto construírem-se num microcosmo que é a escola, nas diversas actividades e, fundamentalmente, nas diversas tomadas de decisão.

Mas, de facto, é aquilo que nós pretendemos. Educar cidadãos intervenientes. Nós não estamos a educar para a cidadania - esse conceito não está presente entre nós. Nós estamos a educar na cidadania. Eles estão a exercer cidadania desde o primeiro momento. Por exemplo, quando apresentam, eles mesmos, a escola. Como foi o caso do Lucas [Lucas, no terceiro ano, acompanhou o entrevistador na visita à escola]. Isso é exercício de cidadania: auto responsabilizar-se, conhecer a escola, perceber bem como ela funciona. No início do ano, há uma lista de alunos que se voluntariam para acompanhar os visitantes.

A escola organiza-se em torno do aluno e não do professor. A escola valoriza o conhecimento que cada aluno traz consigo, e é partir daí que todo o trabalho vai começar. O trajeto de cada um demarca-se muito por aquilo que traz consigo: o seu capital pessoal, a sua cultura, o seu conhecimento, a sua forma de ser, de estar, as suas emoções… É sempre por aqui que começamos. No início do ano fazemos um diagnóstico. Não é só um diagnóstico de aprendizagens, mas também de relações sociais e questões comportamentais. Tudo tem início aí. A escola organiza-se assim, em função disso. Isto é muito simples. Não parece, mas é.


EA – Dois alunos, no início do projecto, na mesma turma, com a mesma idade podem ter necessidades diferentes…


AM – Necessidades, atitudes… Já passámos pela escola e sabemos que não somos iguais. Há alunos que precisam de mais tempo para ler, outros que têm insigts imediatos; há alunos que são muito sensíveis e que, se os abordarmos com brusquidão, retraem-se e o seu desempenho fica comprometido.

Há outros que não. Isto é a mestria de ser mestre. Deixar de ser professor funcionário público e ser um pouco mais professor e mestre, e emocionar-se quando for preciso. É assim que se é um bom professor.

Mas nem sempre estamos neste registo. Temos altos e baixos, como toda a gente. Temos é que refletir bem quando temos baixos, porque aconteceu, o que falhou nesta relação. Ou porque eu não consegui chegar bem ao aluno, ou porque há ruído, como o meio familiar… É que temos todo o tipo de miúdos e a maioria deles não são de meios socioeconómicos abastados. E neste universo, temos 25 alunos com necessidades educativas especiais.


EA – Reparei numa menina com Trissomia 21. Precisa de uma pessoa a acompanhá-la, constantemente…


AM – Não. Esse é um conceito errado da inclusão. A primeira ajuda deve vir sempre do grupo. E a primeira ajuda, quando vem dos pares, tem mais facilidade de percorrer o corredor da comunicação, do que do adulto, mesmo que seja um técnico da Sorbonne. A primeira ajuda da Ponte é do grupo. E não é só para esses meninos com dificuldades, é para todos. Porque entendemos que todos têm dificuldades. Eu também. Eu domino mais a área artística mas, para falar de matemática, eu preciso de ajuda, e peço-a aos meus colegas.


EA – A doutora Ana Moreira trabalha na Ponte…


AM – Não me trate por doutora que não gosto. Há quem goste, mas eu não.
Trabalho aqui há 14 anos, desde Janeiro de 1996. Neste momento, sou coordenadora do projeto. Sou professora do quadro e os professores que têm que estar à frente da escola têm que pertencer ao quadro, nem que os professores contratados tenham tanta ou mais qualidade do que qualquer professor do quadro. Mas, nesta gestão participada, estão três professores do quadro e dois contratados.


EA – Este é o seu sonho?


AM – Este é um dos meus sonhos. Há muitos aspetos na Ponte que têm a ver comigo. É o que eu penso que tem que acontecer nos projectos. As pessoas têm que se relacionar com o projecto em que estão a trabalhar. E foi o meu caso, feliz.
Posteriormente, fui colocada em aldeias e corri um bocadinho as serras de Portugal, o que foi uma riqueza muito grande, foi mais um sonho. Portanto, este não é o sonho, faz parte do sonho. Depois, vim para cá, quase sem saber para onde vinha.

Estive cá, muito tempo, em situação de destacamento. Estive também num quadro a seis quilómetros de casa, na Areosa, em Matosinhos. Não foi, portanto, a proximidade que pesou aqui. Foi a identificação com aquilo que faço. E ainda hoje me faz fazer esta viagem todos os dias.


EA – A quem ler esta entrevista, deixe um conselho sobre esta tarefa que é educar.


AM – É uma grande responsabilidade! Neste momento e nesta sociedade, só quem é cego e surdo não percebe que a educação tem que ter uma resposta diferente. É esse incómodo que, para mim, é estar na educação: procurar e encontrar formas diferenciadas para as diferentes questões, como da indisciplina. Se os alunos tivessem uma participação mais activa, os professores uma participação mais activa, assim como os pais e a própria comunidade, respeitando-se mutuamente, se calhar encontrariam respostas mais interessantes e a educação daria um salto, ainda que pequenino.
Há uma acomodação muito grande na sociedade portuguesa e na educação também. Há muitos fait divers que nos afastam daquilo que é fundamental, que é ser mestre, ser professor. É muito importante para quem gosta do que faz. Para quem não gosta deve ser um pesadelo. Nos tempos que correm, não podemos ser líricos ao ponto de dizermos que só é professor quem realmente só gosta do que faz. Podemos dizer: é professor e pode fazer diferente.

A ponte é, de facto, uma lição nesse sentido. Começou por fazer diferente; está a fazer diferente e, no futuro, certamente fará diferente.


EA – Num futuro próximo as outras farão igual.


AM – Sendo otimista como sou, acredito que sim. Sou otimista por natureza. Sempre acreditei e acredito naquilo que faço e é isso que, diariamente, me faz fazer esta viagem.
Não se esqueçam do envolvimento dos pais na escola. Quando falo em envolvimento, não falo do ponto de vista tecnocrático, onde há papeis muito bem delineados, tudo muito bem legislado. Mas, na prática, como é que as pessoas comunicam umas com as outras sobre a realidade da escola? Aqui, na Ponte, não temos esse problema, pois os pais são os parceiros deste projeto, que só existe por porque estiveram sempre envolvidos nele, desde o primeiro momento.

Educação é envolvermo-nos, juntos. Os pais querem o melhor para os filhos, e nós também.

Vamos muitas vezes ao exterior falar sobre a escola e, por vezes, questionam-nos sobre como são as estruturas. Que estruturas? O presidente do conselho de direção, o órgão máximo da escola, é um pai, não é um professor. Isso não me incomoda nada, nem a ninguém. É um parceiro que está diariamente connosco. E se as pessoas percebessem como é facilitador estarmos juntos, quer para recorrer externamente, como ao Ministério, à autarquia e às instituições…! Se percebessem o quanto é confortável estar com pessoas no mesmo sentido, no mesmo norte. Se calhar, há alguma ausência de conhecimento sobre isto…

Por exemplo: o chamado Conselho Pedagógico da escola, na Ponte chama-se Conselho de Projeto. Nele, há pais presentes, que foram eleitos pelos seus colegas. Não há assuntos tabu. Não há assuntos dos pais e assuntos dos professores. Mas numa escola há alguma coisa que não seja pedagógico? Não achamos que sejamos melhores nem piores que ninguém. Temos a nossa visão. Na nossa visão, a escola não tem assuntos pedagógicos e não pedagógicos.

A escolinha era do "plano dos centenários", tinha duas salas e cada sala a sua entrada.

Grandes males, grandes remédios! Num belo dia, vá de deitar abaixo a parede que as dividia. Limpada a caliça, os putos espreitaram para o outro lado. Lá estavam meninas e meninos iguais aos do lado de Escola da Ponte - Projecto Educativo 2á... O buraco estava aberto e nem pensar em tapá-lo. Veio o trolha a mando da Junta de Freguesia e fez do feio buraco um belo pórtico comum a dois universos que passaram a ser um só. Onde antes estava uma parede que dividia achava-se agora uma passagem que juntava.

Reportagem Bruno Moura e
Rosa Silva


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