Maria Ribeiro

Ana

Por Maria Ribeiro em Dezembro de 2021

Tema Consciência / Publicado na revista Nº 24
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Ana menina doce e irreverente surpreendia todos com a sua alegria, as suas gargalhadas preenchiam de felicidade os corações mais inseguros, o seu olhar repleto de doçura expressava a vida que queria viver.

Todos os dias eram únicos na vida de Ana, dias repletos de magia e em simultâneo limitados nos seus sonhos.

Ana exalava amor, adorava ser mimada e refilava sempre que não lhe faziam as vontades mais insignificantes, mandona e dominadora, gostava de tudo a seu jeito e aí de quem não fizesse o que ela queria…era assim a Ana!

Um dia sonhou ir á escola, Ana não sabia o que era a escola, mas suspeitava, da janela do seu quarto via os meninos a passar de bata amarela aos quadradinhos e mochila ás costas, ela também queria vestir uma bata e colocar ás costas uma mochila e dentro da mochila colocamos um caderno e um lápis, assim passava os dias sentada na sua cadeira adaptada, de mochila ás costas, a ver os meninos que iam para a escola.

Os anos foram passando… e passando bem devagar para Ana que gostava e sonhava poder brincar como os meninos, gostava que as suas pernas reagissem ao seu comando, gostava de poder falar tudo aquilo que pensava e dizer onde lhe doía, sim porque estar o dia todo sentada, muita coisa doía…

Claro que o nome Ana pode ser fictício ou talvez não, Ana uma menina como tantas outras a quem lhe foram retirados os sonhos á nascença, apenas ficou a força de Deus a vontade de conseguir amar incondicionalmente todos aqueles que surgiam na sua vida.



Ana não tinha raivas, nem medos, nem tinha dúvidas, as suas certezas, limitavam-se ás vezes pela incapacidade de não ter resposta, nem das pernas, nem da coluna, nem de uma sociedade que se esqueceu da existência de meninas e meninos com  limitações…, mas com muitos sonhos.

Ana alheia a todas as dificuldades, adorava comer com uma colher a parte de dentro de uma nata e tomar um descafeinado a pensar que era um café, do descafeinado muito cai para fora da boca, porque a sua dificuldade de deglutição é grande, mas no fim da “luta” ela diz AHHHH, (tradução: que bom, soube-me mito bem).

Hoje troquei as voltas á Ana e dei-lhe uma tarte de morango com chantilly, tive que esmagar o morango porque ela não mastiga, mas a sua rapidez a comer foi deliciosa de ver, até a empregada da confeitaria muito sorridente disse - é assim mesmo toca a comer.

Afinal quem é a Ana? Todas as palavras são poucas para a dizer quem é a Ana e todas as palavras, limitam aquele Ser incrível que nasceu de 8 meses, com a força de querer viver e mostrar ao mundo que a vida somos nós que a construímos.

Sem apegos, nem julgamentos Ana não insulta quando tem que esperar 24horas num hospital para ser atendida, pelo contrário depois de muito sofrer com os exames e as agulhas, Ana ainda atira beijos aos médicos e ás enfermeiras, porque entende que não fazem por mal, mas tem que ser para ela ficar boa, e quando repara que a pessoa ao lado dela não esta bem, ela berra para chamar a atenção para o outro doente.

Ana define a paciência, não tendo paciência nenhuma, porque o que ela quer é viver, Ana tem uma vontade de ir ao centro comercial e ver as montras enfeitadas de luzinhas e levar um porta moedas com alguns trocos a achar que pode comprar tudo o que lhe apetece…que felicidade tem em viver, em comunicar, em rir em dizer OLÁ…pouco mais diz do que mãe, pai, mana, papa…o resto só por expressões que o seu mentor lhe ensinou…seu pai.

Seu pai ensinou-a a expressar-se da melhor maneira possível, dizia – Ana tu consegues, diz o que queres, diz ao Pai…e a Ana encontrava sempre uma maneira de se exprimir e de se fazer entender.

Quem é a Ana?…quem são as Anas, os Pedros e tantos outros meninos, jovens ou adultos, esquecidos por uma sociedade em rebuliço na tentativa de encontrar as melhores soluções para o seu umbigo?

O egoísmo hoje em dia ultrapassa o limite do razoável, será que o egoísmo tem razoabilidade?

Em que sociedade estamos inseridos que ignoramos completamente aqueles que não se podem expressar? Quando não se expressam são ignorados, e quanto mais calados melhor.



Sabem o que se passa para conseguir uma cadeira de rodas? (O único meio de locomoção de Ana), quando tempo demora? as voltas que o processo dá? os organismos por onde passa? 

Sabem quanto se paga a um transporte para levar Ana a uma consulta? Sabem que não têm prioridade?…pelo menos nas urgências dos hospitais não têm, sabem o tempo de espera para entrar para um centro de dia? Ou de um lar?

Sabem o valor da reforma? O valor atribuído  limita-a na sua dignidade como ser humano.

Em que sociedade estamos? 

Ana tinha um sonho…ir á escola e com 52 anos conseguiu realizar o seu sonho e de mochila as costas na sua cadeira de rodas apoiada em almofadas foi para o centro de dia - O seu maior sonho – sabem quanto tempo ficou com o apoio das almofadas com a coluna toda torta? Um benemérito da instituição certo dia ofereceu-lhe uma almofada, porque achou que as que tinha não eram suficientes. Ana sorriu e esperou por uma cadeira adaptada ás suas necessidades…1 ano, um ano e meio? Por aí.

Afinal quem é a Ana? Uma força da Natureza, como tantos outros meninos, jovens ou adultos que diariamente fazem tudo para ser dignificados numa sociedade limitada e decadente.

Ana aceita com doçura e sabe que todos fazem o melhor que sabem e talvez que podem.

Bom Natal para todos, e Natal poderia ser mesmo todos os dias…porque não?

Maria Ribeiro









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