Catarina Ferreira

O Resgate da Mulher Selvagem

Por Catarina Ferreira em Abril de 2020

Quando iniciei a minha busca na direcção de mim mesma, inevitavelmente, teria de começar pela base de quem sou. Mulher.

Esta palavra para mim sempre foi poderosa, talvez porque nasci rodeada de Mulheres fortes, de histórias desafiantes e de superação incríveis. Falo das minhas Avós e da minha Mãe. No entanto, sentia que eu não estava a viver o Poder que admirava nelas e sabia que teria de despertar para algo maior do que eu. Além deste poder que queria aceder, haviam situações ao meu redor e em mim mesma que me faziam sentir um desconforto. Como as mulheres eram tratadas e como nós mulheres vestíamos um papel patriarca que não assentava e não assenta, na nossa verdade e na nossa Natureza.

Comecei por ouvir o meu corpo, e por dizer não, assim que ele ficava desconfortável, independentemente da situação. Assim, também comecei a ouvir os “sim”. Nesses “sim”, ouvi a minha ancestralidade… Na altura não sabia explicar isto desta forma, hoje sei que ao ouvir o meu corpo, ouvia as minhas antepassadas e ancestrais, a mostrarem-me o caminho, sentia as minhas raízes, de outras encarnações a chamarem-me. A minha Mulher Selvagem a sussurrar-me.

Foi aqui que instintivamente dei por mim a procurar Círculos de Mulheres e a estudar, pesquisar, sobre o Sagrado Feminino. Iniciei na altura um ano de círculos de mulheres. Quanto mais ia, mais tinha vontade de ir. Assim se deu o meu primeiro contato consciente com a minha Loba Interior, com o meu Instinto e intuição, de uma forma natural. Além de ter reconhecido nas mulheres que comigo estavam em circulo, as irmãs de outras eras.

Hoje vivo mais intensamente esta Mulher que Sou, na minha verdadeira Natureza. Nesta direcção fui encontrando cada vez mais Mulheres Inspiradoras, histórias que não eram só delas, também eram minhas, eram e são de todas nós. Neste meu alinhamento de coração com o coração da Mãe Terra, o Xamanismo entrou na minha vida e tudo ficou mais forte.

Enquanto terapeuta, compreendi que muitas mulheres me procuravam e sei que o meu trabalho comigo mesma, me leva a estas mulheres, que têm as suas Lobas Internas a Uivar, pedindo para serem despertas.

Contar esta pequena parte de mim, é para chegar ao momento em que senti que  tinha de mergulhar mais profundamente nesta descoberta e levá-la a outras mulheres. Ao Resgate da Mulher Selvagem.

Com o intuito de restaurar o nosso empoderamento, transformando as nossas vidas, despertando as nossas verdadeiras memórias, para curarmos as nossas feridas e nos reerguermos das nossas raízes. Por nós, pelas que nos antecederem, pelas que virão e pela nossa Sociedade.

Neste Resgate, dessa Mulher que te sussurra ao ouvido, é onde vais perceber e assumir o lugar que ocupas no mundo, vais conquistar a tua voz e reerguer o teu valor, mudando a visão-padrão que tens dos homens e das mulheres, irás assumir o controle do teu corpo, da tua sexualidade, da tua Liberdade e Verdade. Vai acontecer uma desconstrução de conceitos criados e padronizados de separação e não pertença, principalmente na relação das mulheres entre si.

Quando existe este despertar, aprendemos o que é Sororidade. Esse lugar de apoio entre mulheres, relembrar esse sentido de irmandade e união. Sororidade é sobre empatia, solidariedade, companheirismo e respeito entre as mulheres. E nesta aliança, vamos enfraquecendo os preconceitos que fomos criando à luz patriarca, para relembrar-mos as mulheres de outrora, que se juntavam em círculo, que passavam entre si os segredos das Luas e partilhavam os seu Ciclos e Círculos.

Neste resgate começas acima de tudo a ouvir a tua intuição, aprendes a Confiar nela e a Segui-la sem medo. Vais prender a Amar-te, a aceitar-te e a valorizares cada pedaço Teu e da Tua História. Vai religar-te à Natureza e aos seus ciclos. E essa Brava Mulher, Segura, Determinada, Focada, Doce, Carinhosa, Hospitaleira, Empática e Irmã… Vai Renascer.

Catarina Ferreira

Jardineira da Consciência Humana

“Ao Longo de gerações, estas capacidades intuitivas transformaram-se em correntes enterradas dentro das Mulheres, enterradas pela falta de uso e por forte descrédito. Contudo, Jung observou, certa vez, que na psique nada se perde para sempre. Creio que podemos ter a certeza que as coisas perdidas na psique ainda lá estão todas. Portanto, este poço de intuição instintiva feminina nunca se perdeu, e tudo o que estiver oculto pode um dia vir a tornar-se visível.”

Do Livro: Mulheres que Correm com Lobos.








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